Casas Estranhas, de Uketsu, é um daqueles livros que chamam atenção primeiro pela proposta. Em vez de construir seu mistério apenas em cima de testemunhos, cenas de crime ou pistas convencionais, a história parte de algo muito mais incomum: plantas baixas de casas. São desenhos aparentemente técnicos, frios e objetivos, mas que, quando observados com mais atenção, começam a revelar detalhes desconfortáveis. Paredes recuadas, cômodos sem função clara, entradas em lugares inesperados, espaços vazios e possíveis passagens secretas transformam a arquitetura em uma espécie de evidência silenciosa.
A história começa quando o narrador, que se apresenta como um escritor e jornalista especializado em ocultismo, recebe a ligação de um corretor de imóveis, seu amigo, pedindo ajuda. O corretor está com dificuldade para vender uma casa e acredita que há algo estranho em sua planta baixa. Por isso, procura o autor para saber se aquelas características poderiam ter alguma relação com ocultismo ou com alguma prática ritualística.
A partir daí, o autor leva a planta para Kurihara, seu amigo arquiteto, que se torna uma figura importante na investigação. Kurihara analisa a construção com um olhar técnico, mas também bastante imaginativo, levantando hipóteses sobre o que aqueles espaços poderiam significar. Juntos, eles começam a olhar para os desenhos, cruzar informações, buscar notícias e formular teorias sobre o que pode ter acontecido naquela casa.
Esse é talvez o grande charme do livro. A investigação não começa com uma aparição sobrenatural ou com uma cena de horror explícito, mas com uma pergunta simples e perturbadora: por que alguém construiria uma casa daquele jeito? A partir dessa pergunta, o livro transforma arquitetura em mistério. Cada cômodo estranho, cada parede deslocada e cada espaço sem explicação parecem apontar para algo escondido.
Quando a arquitetura vira um mistério

O resultado é uma leitura muito dinâmica. Boa parte da história se desenvolve por meio de conversas, e isso funciona muito bem porque o leitor acompanha o raciocínio dos personagens quase em tempo real. Eles retomam informações, questionam interpretações anteriores, olham para os mesmos fatos por ângulos diferentes e vão ajustando suas teorias conforme novas pistas aparecem. Isso faz com que o livro prenda bastante, sem exigir que o leitor fique voltando páginas o tempo todo para lembrar quem era determinado personagem ou qual detalhe tinha sido mencionado antes.
Apesar de ser vendido como uma obra de terror, Casas Estranhas não é exatamente um livro de sustos. Ele não assusta pelo choque, nem por cenas gráficas, nem por acontecimentos sobrenaturais perseguindo o protagonista. O medo aqui vem mais da atmosfera, da sensação de que existe algo profundamente errado por trás daquelas casas e da possibilidade de que cada detalhe da planta tenha uma explicação sombria. É um terror mais investigativo, mais próximo do mistério e do suspense, com uma tensão crescente conforme as peças começam a se encaixar.
Nesse sentido, a leitura pode lembrar um pouco histórias de detetive, como Poirot ou Sherlock Holmes, mas com uma diferença importante: o autor não parece alguém que já sabe tudo desde o início. Em Casas Estranhas, o Autor não conduz a investigação com aquela postura de gênio inalcançável. Pelo contrário, ele vai descobrindo junto com Kurihara, com os outros personagens e, de certa forma, junto com o próprio leitor. Essa escolha deixa a narrativa mais acessível e mais envolvente, porque a sensação é menos de assistir alguém explicar um mistério pronto e mais de participar da construção das hipóteses.
Um suspense que prende pela curiosidade
Outro ponto interessante é como o livro conversa com elementos recorrentes do horror japonês, especialmente essa presença de rituais, seitas, tradições ocultas e segredos familiares ou coletivos que atravessam gerações. Esses temas ajudam a dar uma camada cultural ao mistério e fazem com que a trama pareça maior do que uma simples investigação sobre uma casa estranha. Aos poucos, fica claro que aquelas plantas baixas não são apenas curiosidades arquitetônicas: elas podem ser registros de algo planejado, escondido e muito mais perturbador do que parecia no começo.
Se você gosta de mistérios que desafiam o leitor a montar o quebra-cabeça junto com os personagens, essa certamente é uma ótima escolha. E, se curtiu a atmosfera inquietante de Casas Estranhas, vale conferir também nossa resenha de A Última Casa da Rua Needless, de Catriona Ward. Embora as obras sigam caminhos diferentes, ambas transformam casas aparentemente comuns em cenários repletos de segredos e fazem o leitor desconfiar de cada novo detalhe.
Faço a resenha, mas deixo com vocês a pergunta: Esse é um livro para recordar?

