Fala, leitores!
Depois de Casas Estranhas, achei que já estava preparado para desconfiar de qualquer corredor mal posicionado, cômodo sem função ou porta que parece estar no lugar errado. Então Uketsu aparece com Casas Estranhas 2 e basicamente diz: você ainda não viu nada.
A ideia que tornou o primeiro livro tão diferente continua aqui. Plantas baixas aparentemente comuns escondem detalhes que não deveriam estar ali e, quando alguém começa a fazer as perguntas certas, aquelas escolhas arquitetônicas deixam de parecer simples coincidências.
Só que desta vez Uketsu aumenta bastante o jogo. Em vez de acompanharmos um único caso, temos 11 plantas diferentes dando origem a 12 histórias, envolvendo épocas, lugares, pessoas e realidades completamente distintas.
No começo, confesso que fiquei tentando entender onde aquilo tudo queria chegar. Cada novo caso parecia existir de maneira independente, unido aos demais apenas por aquela sensação deliciosa de que havia alguma coisa profundamente errada naquelas construções.
Mas é claro que estamos falando de Uketsu.
Onze plantas e alguma coisa muito errada
Um dos grandes acertos de Casas Estranhas 2 continua sendo transformar algo tão racional quanto uma planta baixa em motivo para desconfiarmos de absolutamente tudo.
Um corredor deslocado, uma entrada estranha, um cômodo isolado ou um espaço aparentemente inútil são suficientes para começar uma investigação. E gosto muito de como os desenhos não estão ali apenas para ilustrar aquilo que está sendo contado. Nós realmente precisamos observá-los.
É quase impossível não parar a leitura para procurar aquilo que os personagens acabaram de perceber ou, melhor ainda, tentar encontrar alguma coisa antes deles.
Como temos diversas histórias, algumas naturalmente me prenderam mais do que outras. Só que mesmo os casos aparentemente menores possuem sua função. Aos poucos, percebemos que Uketsu está espalhando peças diante dos nossos olhos enquanto ainda nem sabemos exatamente qual quebra-cabeça estamos tentando montar.
E quando essas peças começam a se aproximar, o livro muda completamente.

Quando tudo começa a fazer sentido
Histórias separadas por épocas, regiões e personagens começam a apresentar conexões. Informações que pareciam descartáveis ganham importância e detalhes vistos muitas páginas antes voltam à nossa cabeça.
Foi aí que Casas Estranhas 2 realmente me ganhou.
Existe uma satisfação enorme em voltar mentalmente para os casos anteriores e perceber que aquilo nunca foi apenas uma coletânea de construções. Existe algo maior sendo construído por trás de todas elas.
Uketsu também mergulha novamente em elementos muito presentes no horror japonês. Misticismo, religião, seitas, rituais, culpa e acontecimentos que atravessam gerações aparecem misturados a questões envolvendo desigualdade, diferenças de classe e relações de poder.
E talvez seja justamente isso que torne aquelas casas tão perturbadoras.
As paredes escondem segredos, claro. Mas foram pessoas que decidiram construí-las daquela maneira.
O terror continua escondido nos detalhes
Assim como aconteceu comigo no primeiro livro, não classificaria essa experiência como um terror tradicional. Não espere uma história construída em torno de sustos ou criaturas aparecendo a cada capítulo.
O desconforto nasce da investigação. Quanto mais entendemos a razão por trás de determinados cômodos e estruturas, mais inquietante tudo fica. Uketsu pega algo objetivo, feito para organizar um espaço, e transforma aquelas linhas em registros silenciosos de violência, crenças e segredos.
E se Casas Estranhas funcionava justamente por mergulhar profundamente em um grande mistério, esta continuação segue pelo caminho oposto: abre diversas portas para depois revelar que talvez estivéssemos caminhando pela mesma casa o tempo inteiro.
Gostei muito dessa escolha.
Casas Estranhas 2 preserva tudo aquilo que me conquistou no primeiro livro, mas encontra uma maneira de ampliar sua proposta sem simplesmente repetir a mesma fórmula. É estranho, criativo, sombrio e daqueles livros que fazem você querer conferir uma planta baixa mais uma vez porque tem certeza de que deixou alguma coisa passar.
E se você chegou até aqui sem conhecer o início dessa experiência, minha indicação é justamente nossa resenha de Casas Estranhas, primeiro livro de Uketsu. É lá que descobrimos como uma simples planta baixa pode se transformar em um quebra-cabeça perturbador.
Depois dos dois livros, só digo uma coisa: se algum dia eu for comprar uma casa, vou olhar aquela planta com muito mais atenção.
Faço a resenha, mas deixo com vocês a pergunta: Esse é um livro para recordar?

