As Últimas Sobreviventes

Fala, leitores!
Hoje vamos falar de um livro que me virou do avesso, daqueles que você começa esperando uma coisa e, quando percebe, está lendo outra totalmente diferente. As Últimas Sobreviventes, de Jennifer Dugan, lançado pela Editora Alt, é exatamente esse tipo de experiência: você tenta prever os caminhos, mas o livro se encarrega de te puxar pelos pés e te deixar perdido na escuridão das próprias certezas.

Sloan e Cherry são duas garotas tentando sobreviver — literalmente — depois de testemunharem um massacre brutal em um acampamento de verão. Um lugar que deveria ser seguro, cheio de risadas e noites tranquilas, se transforma no palco de uma carnificina quando homens mascarados com cabeças de animais invadem o local carregando facões. Amigos, colegas, pessoas que faziam parte da rotina delas… tudo é destruído em questão de minutos. O horror daquela madrugada une Sloan e Cherry para sempre, mas também abre feridas que nenhuma das duas sabe como fechar.

Agora, algum tempo depois, as duas namoram e tentam reconstruir a vida. Sloan, porém, não consegue dormir sem ser perseguida por flashes daquela noite. Ela não lembra de tudo — e o pouco que lembra parece torto, borrado, inquietante. Para preencher esses vazios, passa a fazer sessões com uma hipnoterapeuta na tentativa de recuperar cada detalhe. O problema é que quase tudo o que ela sabe sobre os acontecimentos vem dos noticiários… e da versão que Cherry conta.

Conforme novas informações surgem, Sloan começa a perceber que o massacre pode não ter sido obra de psicopatas aleatórios. Há rumores de um grupo organizado, quase uma seita, com rituais e objetivos bem definidos. E quanto mais ela tenta juntar as peças, mais percebe que a narrativa nunca foi tão simples quanto disseram. As lacunas na memória se tornam buracos gigantescos e, dentro deles, começa a surgir uma suspeita impossível de ignorar: e se Cherry, a única pessoa que viu tudo ao lado dela, não estiver contando a verdade?

O livro brinca com a linha tênue entre trauma e paranoia. Sloan cava fundo, movida pela sensação sufocante de que algo está errado — e quanto mais ela cava, mais a realidade se desfaz. Aquela frase que carrega boa parte do peso emocional da história aparece como um sussurro constante: “A gente nunca esquece quem consegue escapar.”

Foto por Lisa from Pexels em Pexels.com

E é isso que torna tudo ainda mais slasher. Não estamos diante de personagens cativantes esperando ser amadas pelo leitor. Pelo contrário: Sloan e Cherry são irritantes, impulsivas, desconfortáveis. E faz sentido. Elas são o resultado de um trauma inimaginável, e Jennifer Dugan não tenta suavizar isso. Você lê com a mesma angústia que elas vivem, sempre desconfiado, sempre preso naquele vai e vem entre lembrar e esquecer.

Se por um lado senti falta de uma exploração maior das cenas do acampamento — queria sentir o terror acontecendo ali, morte a morte, respiração por respiração — por outro, a autora direciona o foco para o que vem depois. O verdadeiro horror é o que se instala quando você descobre que pode estar dormindo ao lado do inimigo.

As Últimas Sobreviventes é um thriller psicológico com cheiro de slasher, cheio de dúvidas, memória falha, tensão lésbica, paranoia crescente e um plot que te faz questionar quem realmente merece o título de “sobrevivente”.

Faço a resenha, mas deixo com vocês a pergunta: Esse é um livro para recordar?

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