Fala, leitores!
Tem livro que a gente lê na infância, esquece por um tempo e, quando reencontra na vida adulta, percebe que ele sempre foi maior do que imaginava. Menina Bonita do Laço de Fita, da maravilhosa Ana Maria Machado, é exatamente assim. Eu li esse clássico na época da faculdade de Pedagogia e, relendo agora, consigo enxergar ainda mais camadas, mais intenção e mais potência nessa história que parece simples, mas é gigantesca no que representa.
A trama é delicada e direta. Um coelho branco fica encantado com a beleza de sua vizinha, uma menina negra de olhos brilhantes e laços coloridos no cabelo. Ele a observa, admira e não se cansa de repetir a pergunta que atravessa o livro inteiro: qual é o segredo dela para ser tão pretinha e tão bonita? A menina, com a leveza de quem está apenas vivendo sua infância, responde com explicações fantasiosas, inventa histórias, brinca com a imaginação. Enquanto isso, o coelho tenta reproduzir cada uma das respostas, sempre sem sucesso.
O que poderia ser apenas uma narrativa divertida se transforma em algo muito maior. Ana Maria Machado constrói, com humor e ternura, uma história que valoriza a beleza negra de forma afirmativa, positiva e natural. Não há tom de lição moral forçada, não há discurso pesado. Existe afeto. Existe admiração. Existe uma criança sendo celebrada por aquilo que ela é.

É impossível ignorar a importância desse livro no contexto da literatura infantil brasileira. Publicado nos anos 1980, ele se tornou um marco por trazer representatividade negra de maneira protagonista, algo que ainda hoje precisa ser reforçado nas prateleiras. A menina não é coadjuvante, não é estereótipo, não é sofrimento. Ela é alegria, é cor, é inteligência, é referência. E isso, especialmente para crianças negras, é poderoso demais.
As ilustrações de Claudius complementam essa delicadeza com traços expressivos e cheios de vida. O olhar curioso do coelho, o sorriso confiante da menina, os laços vermelhos contrastando com seus cabelos crespos. Tudo conversa com o texto e amplia a experiência de leitura.
Reler esse livro depois de anos me fez lembrar por que escolhi a Pedagogia. Porque a literatura tem esse poder formador. Porque histórias moldam olhares. Porque quando uma criança negra se vê representada com beleza e dignidade, algo dentro dela se fortalece. E quando uma criança branca cresce lendo narrativas que celebram a diversidade, ela aprende, desde cedo, a respeitar e admirar as diferenças.
Menina Bonita do Laço de Fita é curto, é simples na superfície, mas é imenso no significado. É o tipo de leitura que cabe em sala de aula, em casa, em rodas de conversa. É um livro que atravessa gerações e continua atual.
Eu faço a resenha, mas deixo com vocês a pergunta: Esse é um livro para recordar?

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