Fala leitores!
Quando folheei Monstronário — Monstros e Assombrações do Brasil de A a Z, de Lúcia Tulchinski, senti que estava abrindo uma porta para um Brasil fantástico, cheio de vozes esquecidas e criaturas encantadas e pensei: “Por que não levar essa leitura para o blog e aproveitar que estamos no mês das crianças e Halloween?”. Em cada página, surge um ser do nosso folclore — Saci, Quibungo, Tutu Marambá, Pisadeira — com suas peculiaridades, curiosidades e um leve toque de susto doce. Não é terror; é reverência à nossa cultura folclórica, apresentado como se fosse um guia mágico para crianças.
O livro organiza essas criaturas em ordem alfabética, mas a sensação é de caminhar por uma estrada onde cada curva revela algo novo. Você lê que o Saci pode pregar peças, que o Bicho-Papão ronda janelas, que criaturas menores vivem nas margens das lendas regionais — e vai se encantar não só com o que elas fazem, mas com o porquê de existirem nas histórias dos nossos antepassados. As ilustrações de Alexandre Carvalho dão alma a cada monstro: cores vivas, traços que equilibram o assustador e o adorável, transformando cada criatura em personagem com rosto e história.

Lúcia Tulchinski escreve com um tom leve, conversado, como se estivesse contando essas lendas à volta da fogueira. A leitura é envolvente: você quer virar a página para descobrir qual monstro vem depois. E existe ali um cuidado — ela não força medo, não exagera o grotesco, mas sim cultiva respeito pelas histórias que alimentam o imaginário nacional. Cada “identidade monstruosa” coloca dados curiosos (altura, região onde “há versões da lenda”, peculiaridades) — um recurso educativo sutil que faz o leitor querer saber mais e buscar conversas sobre onde as lendas surgem.
Achei especialmente significativo que o Saci esteja presente — afinal, 31 de outubro é também Dia do Saci —, conectando Halloween à nossa própria tradição literária. Em vez de importar só monstros estrangeiros, o Monstronário nos lembra que temos uma ancestralidade rica de criaturas que já povoaram noites e contos em todas as regiões do Brasil.
O livro funciona tanto para crianças que amam criaturas fantásticas quanto para adultos que desejam revisitar mitos com um olhar renovado. Ele não traz uma “história principal” com personagens que se conectam entre si — cada monstro é seu próprio universo — mas justamente por isso há liberdade para explorar, iniciar conversas. E essa liberdade é o charme: permite que cada leitor faça associações, conte suas próprias versões, pergunte: “na minha cidade falam desse monstro assim”.
Se fosse destacar uma limitação, diria que quem espera enredos entrelaçados pode sentir falta de trama contínua. Mas para mim isso não diminui — ao contrário: o livro se torna mais um catálogo vivo de mitos a serem revisitados. E quem ama folclore vai sorrir ao identificar uma versão regional diferente daquela que conhece.
Com Monstronário, conversas entre pais e filhos ganham vida. Você pode ler um monstro por dia, perguntar: “você já ouviu essa lenda na sua cidade?”, “como contavam quando você era criança?” — isso rende uma leitura afetiva, envolvente e pedagógica sem ser chata.
Se outubro pede contos de arrepiar leve, Monstronário oferece sustos que cabem na palma da mão e no coração. É uma leitura para celebrar nossas raízes, para lembrar que nem todo monstro é inimigo; muitos são guardiões de histórias. Um livro para recordar? Com certeza. E para revisitar sempre que o vento soprar “doze e meia” numa noite de outubro.

Deixe um comentário